sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O coração lateja mais

Tive um corte grave no corpo
pela primeira vez.
Sujei as paredes
e os azulejos
de sangue.
Tentei amarrar
o pé ferido
com uma toalha azul,
mas logo o sangue
a transformou em roxa.
Meu pai me levou ao hospital.
Levei pontos.
O corte foi profundo,
o médico disse.
Meu pai não tem
a mínima ideia
que me causou cortes
muito mais profundos
que esse.
É irônico
justamente ele
ter me levado ao hospital.
Ao invés do médico,
ele que deveria estar costurando
minhas feridas.
Mas acontece o contrário,
meu pai reabre
meus machucados
causando uma dor
muito mais abundante
do que todo aquele sangue que vi.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sacada

Só escuto o guardinha dando seus apitos rotineiros. No mais, a cidade está silenciosa. Resolvi escrever em um lugar diferente, fora do meu quarto, azul de tanta fumaça de cigarro. Estou sentada na rede, na sacada do quarto dos meus pais. Não sei por que insisto em chamar de quarto-dos-meus-pais, já que minha mãe não mora mais aqui. Uma neblina roxa acinzentada domina todo meu campo de visão para as construções mais distantes. Vejo prédios de vários tamanhos e formas, mas meio ofuscados devido á neblina. Uma chuva fina, quase imperceptível, cai do céu. Só consigo enxergá-la devido a luz amarelada do poste aqui da frente. A chuva não faz barulho nenhum. Só ouço algumas gotas maiores caindo do telhado e das árvores. Reparando um pouco mais na árvore aqui do jardim, percebo o quanto ela cresceu. Quando me mudei ela era menor que eu. Hoje, ela é mais alta que minha casa. Meu pai tava querendo cortá-la dia desses. Eu insisti para que ele não o fizesse. Não acho que ele me deu ouvidos, simplesmente deve ter esquecido. Me lembro de alguns natais em que a árvore foi enfeitada com luzinhas coloridas. Achava tão bonito. Depois de um tempo, desistiram de enfeitar a árvore. Esse ‘desistiram’, apesar de ser em terceira pessoa, me inclui. Vejo algumas luzes acesas e me pergunto se alguém está escrevendo assim como eu. Me pergunto se eles estão observando o mundo com tanto cuidado, assim como estou. Me pergunto se eles estão vivendo, sentindo cada batida que o coração dá. Ou se estão só dormindo e esperando o amanhã que não existe. Olho a rua daqui da frente, está tão limpa. Isso costumava ser um ponto positivo para argumentar sobre minha cidade. Hoje, isso não me agrada. Trocaria as ruas perfeitas daqui pelas sujas de São Paulo. Ela tinha razão quando me disse que eu sou a cara de São Paulo. Prefiro sujeira exposta de que limpeza disfarçada. Prefiro as pichações, que revelam o inconformismo das pessoas do que muros claros e bem pintados. Prefiro bares abertos por toda madrugada e os semáforos mudando, vermelho verde amarelo vermelho da Avenida Paulista mostrando que o mundo não para. Estou morrendo de frio, sentido o vento bater no meu rosto e o nariz ficar gelado e não tenho o relógio do Itaú no meio da Paulista pra me dizer a temperatura. A fumaça do meu cigarro confunde-se com o ar quente da minha respiração. Gostaria de ficar aqui por mais meia dúzia de horas, mas já não sinto meus pés. Em São Paulo não estaria tão frio, pois teria ela pra esquentar meu corpo e minha alma.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poema de amor

Amor,
como você me faz
viva.
Nunca me deixa afogar
nessa solidão.
Meu pão,
é sua palavra.
Contigo,
encontro
a mais bela poesia
nas ruas.
Na tua voz,
sinto o real.
Me encontro
nas batidas do teu coração.
Respiro
a fumaça que você me solta.
Me hidrato
com o álcool do teu sangue.
Tua sujeira
limpa minha alma.
As pílulas
são inúteis
perto do teu sorriso.
Filtro
a tristeza
com tua
presença.
Meu caminho
tão escuro
encontrou uma luz
que não arde os olhos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Casa nova, silêncio antigo.

Rodo a chave
e dou um passo lento
para dentro de casa.
Não há ninguém sala.
Subo os degraus rastejando
e me jogo na cama macia.
Escuto ruídos da TV ligada
do quarto ao lado.
Minha mãe está em casa.
Minha presença
não faz a mínima diferença.
Continuo deitada
fitando o teto branco.
Meus pensamentos fervilham.
As questões são as mesmas
Por que você não tem interesse por mim?
Por que você não quer me ouvir?
Por que você sempre foi tão...
ausente?
A porta do quarto ao lado se fecha.
A TV é desligada.
Eu continuo imóvel na cama macia
repousando o corpo já que
descansar a mente é impossível.
E volto a me perguntar
será que quando eu for embora
você chegará a notar minha falta?

sábado, 28 de agosto de 2010

Fala De Falta

Foram tantas palavras economizadas
que eu não entendia o motivo
de existir um vocabulário
O diálogo só existia na imaginação.
O subentendido
ganhou prioridade.
Era uma casa de não-ditos.
Os silêncios nos perseguiam
desde que acordávamos
até irmos jantar.
As refeições eram torturantes
O único som que se ouvia era dos talheres.
Ninguém arriscava uma sílaba sequer.
A linguagem verbal desapareceu
como se tivéssemos nos transformados
em uma comunidade pré-histórica.
Minha garganta doía
pela quantidade de frases engasgadas.
Até que explodi em choro
com direito a gritos histéricos.
E antes que outra palavra fosse reprimida,
parti sem dizer adeus.

domingo, 8 de agosto de 2010

Primeiro herói

Peguei a caneta que ele me deu
e estava cheia de pó
O pó era de calmantes
que foram esmagados por
descuido.
Poderia ser outro tipo de pó.
Meu primeiro herói
me deu
como seu último presente
uma caneta
Mas ele nem sabe o significado
que essa caneta tem pra mim.
Jamais saberá.
Ele não passou horas
escolhendo essa caneta
em vitrines.
Simplesmente ganhou
de alguém qualquer.
é uma caneta que tem uma logomarca
na tampa.
Os calmantes e as outras pílulas que tomo
tem uma íntima relação
com meu primeiro herói.
Meu primeiro herói me decepcionou
como ninguém jamais irá.
Sobrevivo graças aos comprimidos
graças as canetas
(aprendi sozinha a importância delas)
graças aos cigarros
graças ao álcool
e aos porres contínuos.
Mas nem esses porres
me deixam esquecer
um minuto sequer
do meu primeiro herói.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Como é estar viva

Me sinto presa nas minhas roupas, nos meus hábitos, na minha cidade e principalmente, nos meus pensamentos. Eu não sei bem o que é, mas tem algo movimentando constantemente minha cabeça, como aquelas bolinhas prateadas que ficam mexendo eternamente em escritórios. Invejo sensações como: estar boiando numa piscina sem pensar em nada, ver tv sem pensar em nada, dirigir sem pensar em nada. Invejo basicamente todas as situações em que as pessoas não pensam em nada. Pensar em nada, isso é tão raro pra mim. Tudo que vou fazer parece exigir um esforço que não dou conta. Procuro lugares, procuro livros, procura bebidas que me façam não pensar. Imagino, calculo, elaboro, reflito, decifro, refaço, prevejo o futuro. Luto todos o minutos do meu dia contra minha maldita cabeça. Às vezes penso que só pode ter algo de errado comigo. Vejo as pessoas conversando despreocupadamente no bar, comendo despreocupadamente no shopping, tocando violão despreocupadamente. Por que só eu não consigo ficar despreocupada? Sei lá, esquecer o caos do mundo, da família deficiente, das amigas que não entendem, do dinheiro que falta, da profissão incerta, da pobreza, do egoísmo, da tristeza, da dor que não alivia. Fico pensando no resto desse dia terrível, nas horas que não passam, no próximo mes que vai ser igual e nas sensações repetidas do próximo ano que continuarão a perturbar meu peito. Devia ter uma pílula mágica, um tratamento, uma solução. Devia ter uma porra de uma solução para acalmar esses demônios que me incomodam de dia, tarde, noite, madrugada, primavera, verão, outono, inverno. Sossego, é isso que eu anseio. Levantar os pés pra cima e estralar as mãos atras das costas deitada em uma cama macia. Será que é pedir muito? Minha psicóloga chama tudo isso de ansiedade. Seja o nome disso, vai me deixar louca um dia. Falo isso sem nenhum exagero porque minha vontade é arrancar minha cabeça fora. Não vejo como fim da vida mas fim do desespero. De repente, me vejo conjugando o verbo aguentar na primeira pessoa com uma esperança tirada não sei de que parte do meu corpo. Não é muito verdadeiro o que repito, mas eu tento, eu tento eu tento. Tento, mesmo que inutilmente e rezo pra Deus pro Diabo pra quem quer que esteja me ouvindo. Me sinto num poço fundo, escuro e frio gritando com todo ar dos meus pulmoes, batendo insistentemente nas paredes em volta de mim. Esgasgo com meu choro arranco meus cabelos e ninguém me escuta, ninguém vem me buscar. Eu tento subir mas meu corpo está fodido, cansado demais. E também, não conseguiria, a saída é lá longe, mil vezes o meu tamanho. Vejo uma luz, a luz do dia, bem em cima de mim. Ela é brilhante, enérgica, serena, me passa quase algo como tranquilidade. Eu sei que a luz e a saída desse poço onde me encontro existem, por isso fecho os olhos e aperto os punhos e rezo. Rezo e sonho em sair desse lugar claustrofóbico. Minha cabeça é escura, profunda, assustadora igual essse poço. Estou na casa de pessoas que costumavam ser minhas amigas. Todas riem alto, esforçam-se para serem engraçadas enquanto bebo minha cerveja em silêncio. Vou para o banheiro, esfrego as mãos no rosto e fico sentada na privada por um tempo bem maior que o necessário. Estralo meu pescoço e respiro fundo. Meus dentes estão cerrados, meus maxilares latejam. Por que eu não consigo rir e conversar igual elas? Parece tão fácil, tão agradável. Não quero ouvir, não quero falar, não quero ver, não quero sentir. O grande problema (o pior,o mais fodido dos problemas) é que minha cabeça me condena impiedosamente e constantemente para essas malditas situações. Escuto conversas que tive há muito tempo e outras que nem mesmo aconteceram. Onírico e real. Vejo momentos do passado, presente futuro e todos os outros tempos verbais. Falo frases engasgadas, sentimentos reprimidos. Até grito, xingo e reclamo de tudo que não disse nesses 22 anos. Sinto, em excesso, coisas que me reviram o estômago. Minha cabeça revive meus cinco sentidos e mistura da forma mais dolorosa, intensa e crueal ficção e realidade, o que sou e o que quero ser. Como os outros agem e como queria que eles agissem. Como são as situações e como gostaria que fossem. Meus medos ficam tão perto, minhas angústias tão visíveis. Minha fraqueza exposta e pronta para ser explorada, reforçada e intensificada pelo ser humano que mais me machuca: eu mesma. Minha cabeça inventa demônios e assassina deuses. Minha cabeça envenena meu coração. Minha cabeça fode minha alma que é ingênua e persistente e continua procurando no inferno dos meus pensamentos traidores um segundo de paz.